SOBRE
Um pouco sobre minha história.
Quem é Dra. Cristina ?
Nasci em Cianorte (PR), na cama da minha mãe, Maria Madalena, em 10 de abril de 1965. Meu encantamento por estar no meio de gente vem dessa época, pois nossa casa era cheia, sou a décima filha de 14, e tínhamos sempre muitos amigos por perto. Aprendi a ler e a escrever em casa – desde cedo já soletrava palavras –, o que me fez terminar o Ensino Médio muito nova.
Aos dezesseis, eu me mudei para Curitiba, fui cursar Educação Física na Universidade Federal do Paraná. Meus pais sempre incentivam nos estudos. Minha mãe dizia: “Se for para eu escolher entre formar filho homem e mulher, vou escolher sempre a mulher, pois não quero filha dependendo de marido.” Mamãe era meio feminista, mesmo sem conhecer o feminismo. Mas não foi preciso escolher, fomos todos nos formando. Na universidade, atuei no Movimento Estudantil, era a Ditadura e, claro, queríamos o fim do regime opressor. Lembro-me de uma grande manifestação que fizemos, o ditador Figueiredo estava em Curitiba. Soldados fortemente armados fizeram barricadas e a gente ia oferecendo rosas brancas a eles; não aceitavam, então colocávamos no chão entre seus pés. Resultado, o diretor me chama, sobre a mesa dele estava um dossiê completo a meu respeito, tinha até uma foto da mamãe que eu nunca tinha visto antes. Mas, graças a Deus, não tive problemas graves – muita gente, naquela época, simplesmente desaparecia sob as botas da repressão.
Formei-me em agosto de 85 e já fui selecionada para estudar na Alemanha no ano seguinte – um sonho! Àquela altura, eu namorava um médico e eu disse que, com a viagem, iríamos terminar o relacionamento. Em janeiro de1986, ele estava em casa gravando algumas fitas; ao perceber que meu irmão Gilmar saiu, ele foi à cozinha, pegou o vidro de álcool que ele mesmo havia comprado com a justificativa de higienizar louças, pois ele estava fazendo um curso de gastronomia. Tomei um susto quando senti um líquido frio cair sobre meu corpo.
Então, me dei conta de que era álcool. Ele estava com uma caixa de fósforo nas mãos: “E, se eu te matar?”. Fiquei paralisada – ele nunca havia me ameaçado –, mas tive forças para falar: “Olhe, pense bem no que vai fazer, você tem família, eu também”. Ele acendeu um fósforo, deixou apagar. Acendeu o segundo, que se apagou lentamente. O terceiro, aceso, foi jogado. Imediatamente, as chamas, implacáveis, tomavam conta do meu corpo. Meu irmão, que ainda estava por perto, ouviu meus gritos e arrombou a porta da cozinha, que o agressor, cuidadosamente, havia trancado. Como bem aprendemos nas aulas de primeiros socorros na escola, meu irmão envolveu-me com um cobertor para apagar o fogo e me levou para o chuveiro.
Tive 85% do corpo queimado e um veredito médico: ela vai morrer. Soubemos de um hospital em Goiânia que estava conseguindo excelentes resultados no tratamento de queimaduras. Meu pai vendeu a fazenda da família de porteira fechada. Os médicos de Curitiba foram incisivos: Vocês vão levar uma maca e trazer um caixão. Mesmo assim, minha fé e a da minha família nos impulsionou. Meus irmãos compraram 8 passagens – a maca ocupava vários lugares – o Diniz e o Gilberto vieram comigo.
Aqui, em Goiânia, as expectativas também continuavam as piores. Eu estava com uma bactéria e os médicos de Curitiba já haviam dado dose máxima de antibiótico, sem efeito. Da direção do Hospital de Queimaduras veio o mesmo prognóstico, morte. Meus irmãos insistiram: Fizemos de tudo para chegar a Goiânia e não desistiremos. O médico disse: Podemos raspar toda a pele queimada dela, colocar outra no lugar para que o corpo pense que houve melhora e talvez reaja, mas eu não acredito que dará certo, ela vai morrer. Já que meu corpo estava quase todo queimado, foi preciso extrair a pele de meus irmãos. Então, vieram mais dois para ajudar, Gil e Nino foram os doadores, Diniz fazia o plantão do dia, enquanto o Gilmar cuidava dos dois outros no apartamento que alugamos - em frente ao Lyceu de Goiaz –, à noite o Gilmar ficava comigo no hospital.
A ajuda da minha família, a fé e a vontade de viver foram me fortalecendo para suportar dia por dia. Já melhor, fui aos Estados Unidos continuar o tratamento e fazer uma roupa especial que cobria todo o corpo, essencial à recuperação.
Duas outras pessoas importantes foram o piloto de Fórmula 1 Niki Lauda, que me recebeu em Viena e me ajudou, e o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que fez inúmeros procedimentos sem me cobrar nada. Meu dilema repercutiu, vários veículos importantes trataram do assunto, com destaque para a Globo no “Fantástico”. Meu agressor foi julgado e condenado exemplarmente, o que era bastante raro no Brasil quando se tratava de crime de gênero. A essa altura, eu já era forte militante pelos direitos femininos e contra a violência que tanto aflige nossas meninas e mulheres – fiz disso a bandeira de uma vida toda.
Entre idas e vindas, Goiânia ganhou meu coração. Fixei raízes e aqui recomecei. Decidi fazer outro curso superior, Fisioterapia. Eu queria trabalhar com reabilitação de queimados, ajudar as pessoas a enfrentar aquela dor que eu bem conhecia por sentir no corpo e na alma. Atuei, por anos, no mesmo hospital que me atendeu quando cheguei à cidade. Minha próxima empreitada foi criar um curso de Fisioterapia em Goiás – não havia nenhum. Depois de muita luta, a Esefego abria a primeira turma e lá fui professora por muito tempo.
Um dia me disseram: Pra sua voz ecoar mais longe na luta contra a violência de gênero, você devia entrar para a política. Fiquei pensativa por uns dias e decidi aceitar o desafio. Sem dinheiro algum, candidatei-me a vereadora por Goiânia. Vários amigos artistas, grandes nomes de Goiás, se reuniram para me ajudar, doando obras, que foram leiloadas. Com as vendas e com apoio de muita gente maravilhosa, conseguimos fazer uma campanha muito bonita e forte! E o resultado veio: assumi uma cadeira na Câmara entre 2013 e 2016. Fiz um mandato com muita luta e vários projetos apresentados e aprovados. A população tanto reconheceu o trabalho que, nas eleições seguintes, assumia novamente como a segunda parlamentar com maior número de votos na capital. Dado que tenho como convicção que um político deve ficar em um posto por apenas dois mandatos, encerrei minha jornada de vereança por Goiânia. Que novos candidatos viessem para fazer a democracia girar, como eu acredito que deve ser.
Minha perspectiva era concorrer à prefeitura de Goiânia em 2020. O partido em que eu estava não me liberou para o pleito. Filiei-me, então, ao PL, que, na época, não era radicalizado como hoje. Fui assediada pelos partidos rivais me oferendo cargos em troca de alianças promíscuas ou de desistência, mantive-me firme nos meus propósitos, neguei todas as ofertas, resisti a todas as ameaças. O partido fez a Convenção, mas, na hora de registrar a candidatura, simplesmente não registraram. Entrei na Justiça e ganhei o direito à candidatura, mas, frente ao tempo perdido, não consegui a vitória.
Em seguida, entre 2021 e 2022, atuei como Secretária Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas de Goiânia. Em 2022, candidatei-me ao cargo de deputada federal por Goiás, alcancei 17.351 votos e fiquei na suplência.
Desde 2023, exerço o cargo de Secretária de Projetos Especiais da Assembleia Legislativa de Goiás, a Alego, vinculada à Procuradoria Especial da Mulher. À frente dessa missão, liderei a articulação e a expansão das Procuradorias Especiais da Mulher em todo o estado, um trabalho que se conecta diretamente à minha trajetória de defesa dos direitos das mulheres.
Quando assumi a secretaria, Goiás contava com apenas quatro Procuradorias instaladas. Atualmente, graças ao trabalho de articulação institucional, capacitação e mobilização junto aos municípios, esse número já alcança 77 Procuradorias Especiais da Mulher, fortalecendo a rede de proteção, acolhimento e combate à violência contra mulheres e meninas em Goiás.
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